Sonetos Cristalinos das Quinze Estações

 Os dois Lados do Negócio 

O negócio do querer está 

Sediado no lado esquerdo 

A negação do ócio está 

Ancorada à nossa direita


Quem quer não sabe por quê 

Quem sabe o porquê não quer,

Nem sequer deseja o querer

Não mais se entrega à vontade


A vontade é a tirana do querer

O querer escraviza a vontade 

A vontade é a senhora do desejo


Dois quartos de nossa razão é 

Dois terços do querer deseja

Apenas um terço nosso é, seja.


Três sonetos, uma aflição 


Apenas um terço nosso é o Ser

Duas partes nossa é o negócio 

Dois quartos nossos está vazio

Dois quartos nossos foi invadido 


Quatro oitavos nosso é hipoteca

Quatro oitavos nosso é hipótese

Um quarto nosso ocupa apostasia

Um quarto nosso ocupa a tirania 


Um terço de nós assenta a rebeldia 

Um terço de nós sente a vocação 

Dois terço de nós vira gado ou vaquinha 


Um terço da História já foi pro chão 

Um terço do mundo já é poeira fina

Um terço de luz já produz salvação 


O soneto que não tem sono


Uma parte de nós é tudo luxo e lisura

A outra parte de nós é só a pura liseira

Uma parte do tempo nosso é pura usura

A outra parte de nós juro é contentamento


A parte do barro já foi refeito em pó

A outra parte é o barro a ser moldado 

Uma parte de nós e terra árida e seca

A outra parte de nós argila úmida


A outra parte do nós é solo cultivado 

Uma parte de nós é obstinada 

Outra parte de nós solidão revelada


Outra parte nós é terra desastrada

Uma parte de nós é ferro fundido 

Uma parte de nós foi subestima 


Uma parte é minério a ser extraído 


Uma parte de nós é espelho plano

Uma parte de nós é espelho côncavo

Uma parte de nós é espelho d’água 

Uma parte de nós é lente combinada


Uma parte de nós é uma poça de lama 

Outra parte de nós é a perfeita palavra

Uma parte de nós é a completa aliança 

Outra parte de nós é a completa balança 


Sem a palavra, a outra parte nada seria

Sem esta outra parte, nada a ver nem verá

Sem a simples palavra, o espaço não caberia 


Sem espada, arco, flecha ou lança 

Nada em nós seria guerra ou guerrilha 

Com a palavra ninguém mete medo não 


Um soneto se ama por inteiro


O requinte de escrever sutileza

O recado de dizer sim ou não 

A vontade de querer sabedoria 

A vontade é feita no trono ou não?


O patrono é um caboclo Homem 

O patrono é que nós dá proteção

O caboclo sempre foi o seu dono

O caboclo não segue o abandono 


O abandono é a desolação 

O abandono é a fuga ao Egito 

O abandono é pura tentação 


A adoração da correta da palavra

É o oposto a mera especulação 

É lavoura de palavra encarnada


Aprendendo a dizer não


Como podemos servir apenas um ó Senhor?

Se o Estado moderno de tudo se assenhorar?

O que é bom pro Senhor é bom para o Humano

O que é bom pro indivíduo é o melhor pra nação


Quem é o luto do Ser, fingindo ser só uma luta?

Quem é o fruto da carne, multiplicando o pão?

Quem reconhece a verdade e se assemelha à imagem

Quem não conhece a verdade se avermelha é paixão


O que é bom para o Estado só é criar histeria

O que é bom pro indivíduo só a redenção

O que é mau para o estado é bom para o indivíduo


Quem é da supervisão? Quem é da diretoria?

Quem é da repartição? Quem é da segregação?

Quem é o estado de morte? Quem é a ressurreição?


Podemos estar um Dia


Podemos estar um dia adiantado no Tempo

Podemos um dia estar adiantado nas Horas

Podemos um tempo esquecer da gente

Podemos um dia se esquecer das horas


Podemos servir a um só Cristo

Podemos saber de toda a farsa

Podemos saber da Farsa Toda

Podemos só pensar que Foda


Podemos servir a mentira de Novo

Podemos servir a mentira do Novo

Podemos servir a mentira mais louca


Podemos julgar na direção oposta

Podemos traçar nosso justo caminho

Podemos perder o tempo da mesa posta


O Sagrado Coração do Mundo


O que é bom para o Bem para sempre será

O que é bom para sempre o Bem irá louvar

O que é ruim para o Homem também o é para sempre

O que é ruim para o Senhor também pra sempre será


O que é justo aos olhos não se enxerga a maldade

O que é justo na alma arrebatado será

O que é limpo e é puro nunca se macular

O que é puro e límpido não há de se se contaminar


Só a palavra perfeita é feita por quem procura

Dissipar toda a treva, toda heresia e loucura

Só a palavra invade o coração de quem à busca 


O soneto recorda para o bem da ideia

O soneto recorta de tudo a hipocrisia

O soneto reparte o sonho da fantasia


Não me tire da ideia


Não me tire a seriedade

Não me tire a distopia

Não me tire qualidade

Não reponha com apatia


Com verdades relativas

Com absoluta certeza

Não te renda a covardia

Com quem tudo deu valia


Não me venha com lamento

Não me venha com lamúria

Não me venha sem firmamento


Não me parta a verdade

Não me venha com mentira

Para não virar só o pó da poesia

Nem tudo é números. Tudo é letra

Pitágoras estava em parte certo

Mas em grande parte equivocado

O coração do mito estava aberto

Para que o sábio pudesse adentrá-lo


A verdade é pública 

Mas nem tudo que é público

De fato é só a verdade 

Mas nem todo público é perfeito


Para todo erro conte- me só o desterro

Para a servidão conte me a saída

Para toda caverna conte me sua versão


Para toda a miséria seja feito o enterro

Para que toda a verdade não se torne ilusão

Para todo pecado. O remédio é o perdão


Não me retire o perdão 


A cruz não é um X

O X não é uma cruz

Uma cruz é adição

Nunca foi subtração


O oito é numeral

O oito na vertical

Já o oito deitado

Simboliza infinito


A ordem é conjunto

Já o conjunto é tudo

E a tolice, enganação


É mais fácil enganar

Ou tirar alguém do engano?

É mais fácil ouvir ou mais fácil falar?


Sem Orgulho ou vangloria


Para que todo o público se acerque da verdade.

Só haverá nesta terra verdade e confirmação

Para que todo o público se afeiçoe a verdade

Não haverá nesta terra mentira ou desilusão


Não se parte um soneto ao meio

Não se parte um soneto em dois

Soneto se ler inteiro, duas estrofes

De quatro versos, e duas estrofes de versos derradeiros


Assenhorear-se de si

Conversa de alforria

Conversão é por si, e só


Com tudo que escrevo

Pago parte do que devo

Sem orgulho ou vangloria


Não há de haver Anistia?


Não pode haver Caifás, Anás ou corrupção

Não pode haver Barrabás afeito a revolução

Não pode haver desespero nem recriar histeria

Não há do Filho uma vírgula que não seja criação


Tudo que há na palavra não é só letra fria

Tudo que há na palavra, escrito não é só rito

Não haverá na palavra uma só invenção

Não haverá no escrito apenas um simples ato


Que não venha de Deus ou fruto da perdição

Que não venha a traduzir uma tristeza de fato

Que não venha elevar a alma do bom cristão


Que do fogo não tenha saído o teu guia

Que do fogo não volte quem te deu alegria

Que pro fogo só volte quem te traz a traição


O coreto do Pai e o Soneto do Filho


O pai é aquele a quem não basta cuidar bem só de si

O pai é aquele que não esmorece diante a dificuldade

O pai é aquele que só alcança um trono quando feliz?

O pai é aquele que sabe que o Senhor é um só Pai


O Pai é aquele a quem o Filho reconhece

O Pai é aquele que reconhece o próprio Filho

O Pai é aquele que se esvai quando apetece


O Pai é aquele não feito na Teoria

O Pai é aquele não feito da Teoria

O Pai é aquele que à todos traz consolação


Pai é aquele que rejeita a hipocrisia

Pai é aquele que renega a admoestação

Pai é aquele que considera a ofensa e seu perdão


13:13


Soneto Refletido 2/3, 2/4 Dois Terços dois Quartos


Nem toda semente é um grão, ou nem todo grão é semente ?

Nem todo drama é tragédia nem toda cena é jogo de luz

Nem todos sabem que comédia não é mera ou divina ironia.


Nem todos sabem o que foi derramado ao chão

Foi o sangue do Rei de todo um só Universo

Foi a Palavra de Deus Feita Humana Perfeição


Um soneto refletido de glória se reveste

Um soneto refletido assim não mais será feito

Um soneto convertido, de sangue, suor e amor

Um soneto convertido de lágrima, pecado e dor


Um soneto livre em verso louva O Deus do Universo

Não se afasta da Verdade nem é feito só de rima

Nem proclama rebeldia conta o Escrito em um só verso

Um soneto invertido tem o resplendor na Tríade por cima


13:30

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